sábado, 27 de novembro de 2010

Olhos;

Agarrei o primeiro par com meus membros disformes e coloquei-os em minhas órbitas vazias. O mundo agora retomava suas formas conhecidas, retorcidas e sujas. Animais rastejavam por entre os cantos, esgueirando-se por entre orifícios e frestas, acuados pela fraca luz de um candelabro. Deslizei, assim como eles, em direção ao velho espelho empoeirado, firmemente preso em sua moldura de ferro, estático e impetuoso em sua sinceridade muda. O primeiro par que escolhi para meus olhos era verde, pude perceber assim que aquela íris estranha e nova encontrou-se com sua gêmea em seu reflexo. Eram verdes porque lembravam os campos claros e seus gramados banhados de luz, quem quer que olhasse-os perceberia. No entanto, parecia óbvio não serem aqueles meus olhos, eu jamais poderia transmitir tanta paz a um outro enquanto minha alma fervilhava em auto-flagelação e, apesar de poder, não escolheria algo que não me refletisse tão perfeitamente quanto o grande espelho a minha frente. Voltei à caixa de onde havia retirado os olhos e escolhi um segundo par, logo vestindo-os em meu rosto. Azuis, de uma cor que lembrava o céu do meio dia, uma claridade serena, penetrável e sincera. Qualquer um que olhasse olhos tão pacíficos embargados de lágrimas se comoveria. Mas eu não desejava comover a ninguém com lágrimas. Olhos tão belos jamais poderiam ser meus olhos, jamais revelariam a fúria em minha tristeza e a inflexibilidade do meu ser. Retirei-os logo e pude finalmente vestir o último par que restava na caixa e ao olhar no espelho, não tive dúvidas, eram aqueles meus olhos. Negros, de uma cor tão escura que sugava toda a claridade que neles incidisse. Tive certeza porque eles não me lembravam nenhum lugar do mundo, porque quem os olhasse não se sentiria mirando campos ou céus, só a mim. Tive certeza porque se chorasse, ficariam emoldurados por veias vermelhas, inquietantes, e apenas nesta mistura vermelho-negro seria possível entender a minha raiva por estar derramando aquelas lágrimas. Porque as palavras que saem da minha boca não são agradáveis, a minha presença é nervosa e meu ser é imoldável. Porque o negro em sua ausência de significado, me reflete.

Um comentário:

Pollyana disse...

Você neeeem se garante né Nati? XD
muiiiiito bom! :*